Meu Relato de Parto – Uma experiência sem igual

 

De todos os mistérios do sangue, dar a luz é a experiência mais profunda, comovente, atemorizadora e transformadora. A mulher inicia a descida ao mundo da sombra e da dor, abrindo mão de qualquer controle e entregando-se ao processo da morte (do seu ser anterior), nascimento (da criança) e renascimento (de si mesma como mãe).” – Mirella Faur

O pequeno beija-flor pela primeira vez em nossos braços.

Definitivamente aqui em casa, o Natal perdeu seu posto de “feriado mais querido do ano” para a chegada do Francisco. Seu nascimento estava previsto para o dia 24 de dezembro de 2015 e como havíamos decidido tê-lo em casa, em um parto domiciliar planejado, resolvemos nos afastar de tudo e todos alguns dias antes, nos retirando para o local que seria o cenário desde momento.

Os primeiros pródromos (contrações de treinamento) mais atrevidos começaram a dar sinais na madrugada de Natal, entretanto o trabalho de parto efetivamente só começou no finalzinho da tarde, depois de um longo passeio pela orla onde conversando com Iemanjá me despedi da barriga e lhe pedi auxílio para o momento derradeiro.

Na volta para casa, as contrações se tornaram mais ritmadas e longas por isso decidimos chamar a doula e a equipe de parto domiciliar. Era o início de uma longa e emocionante noite para todos nós.

Quando a equipe de parto chegou, algumas horas depois, as contrações começavam a se tornar mais desafiantes. A cada nova contração o corpo era sacudido pela dor, mas não pelo sofrimento. Entre elas, doces momentos de descanso onde era quase possível tirar um cochilo, não fosse pela ansiedade de ver logo o rostinho do pequeno.

Apoio e carinho entre uma contração e outra

 

Sangue, suor e lágrimas misturavam-se no momento em que o racional passou a dar lugar a uma corrente de emoções contraditórias, como ondas do mar se chocando a um rochedo: assustador, desafiante, porém transformador e melodioso.

Algum tempo depois, que já não saberia precisar agora se curto ou longo, entramos no estágio tão perfeitamente denominado de anel de fogo. Momento onde toda a região genital é tomada por um calor que parecia torná-la em brasa, fase que anuncia o nascimento em instantes.

Sentada na cadeira de parto, amparada pelo marido, a doula e a equipe de parto, mais duas ou três contrações acontecem e nasce a cabecinha. O corpo todo relaxa, pois sabe que precisará de todas as suas forças em poucos instantes.

O silêncio que se instala é interrompido por um urro quase selvagem que trás ao mundo dois novos seres: de um lado uma mãe empoderada que acaba de parir seu filho e tomar posse, verdadeiramente, de sua herança feminina, e por outro uma criança que teve seu tempo respeitado e participou ativamente de todo o processo.

Sim, porque era lindo de ver como, a cada contração, Francisco apoiava seus pezinhos e empurrava para baixo contribuindo para acelerar o trabalho de parto.

Entre lágrimas de emoção e alegria, meu olhar se dirigiu a todos os presentes com uma pergunta: É de verdade? Como se o racional custasse a crer no que, pasma e silenciosamente, presenciara.

Somos muito mais forte do que nos fazem acreditar. Basta apenas nos recordarmos de quem realmente somos.

Francisco, papai e mamãe

Hoje, Francisco comemora seu primeiro aniversário, e eu o observo dormindo tranquilamente enquanto escrevo este relato. Dorme ao lado do pai, homem que escolhi para ser meu companheiro nessa aventura e que foi parte fundamental de todo o processo.

Com seu apoio e carinho, soube estar presente sem ser inconveniente. Com sua mão firme transmitiu coragem e me conduziu com amor e lucidez pelos labirintos das emoções contraditórias, no momento em que minhas sombras tentaram “comandar o espetáculo”.

Um grande companheiro que renasceu conosco, como pai, naquele amanhecer.

A doula, amiga e companheira de caminhada, que acolheu meu convite com muito carinho.

Desde o início da gestação, sentia que era ela a pessoa que me acompanharia neste momento, pois eu sabia que precisaria de alguém que já tivesse passado pela experiência de um parto natural para acolher com respeito suas orientações e incentivos nos momentos mais extremos.

E ela foi perfeita. Horas entrava e saía dos ambientes de maneira tão respeitosa e silenciosa que parecia flutuar. Horas se transformava em uma gigante me transmitindo força e coragem, segurando minhas mãos já trêmulas e cansadas por todo o processo.

A equipe de parto domiciliar, extremamente competente e profissional, desde o primeiro contato me transmitiu a segurança necessária para que eu pudesse me entregar plenamente aos meus processos com a certeza de que se algo saísse do controle, elas saberiam como e quando intervir para garantir a segurança de tudo e todos.

 

Papai, mamãe, Francisco e a equipe de parto domiciliar

Assim, Francisco nasceu no dia 26 de dezembro de 2015, às 5:10 da manhã, pesando 3,600kg e medindo 51,5 cm, após um trabalho de parto ativo que durou em torno de dez horas. Chorou nos primeiros instantes, fez xixi, coco e mamou em sua primeira hora de vida, o que lhe garantiu um apgar de 10/10.

Nasceu rosado, forte, saudável e teve seu tempo respeitado. O cordão umbilical só foi cortado depois que parou de pulsar. Foi pesado, medido e vestido, somente depois de passar mais ou menos uma hora no colinho da mamãe e do papai, recebendo afagos, carinhos e mamando pela primeira vez. Teve seu vernix preservado e só tomou banho no dia seguinte.

Hoje, um ano depois, segue nos surpreendendo a cada dia com suas peripécias e nos ensina a amá-lo mais e mais a cada instante.

A onda de ocitocina produzida no parto sem intervenções envolveu a todos por semanas. Tanto aos que estiveram presentes no momento, quanto aqueles que conviveram conosco naqueles dias.

As curas que aconteceram em minha família por conta de sua chegada são indescritíveis.

Muito mais que um parto, o nascimento do Francisco foi um processo de transformação amorosa que nos fez relembrar o quanto a vida, em sua imensa sabedoria, sabe ser generosa e magicamente perfeita.

Sou imensamente grata por cada instante.

Francisco um dia antes de completar 1 ano